quarta-feira, 25 de maio de 2016

Cora Azedo

Muitas vezes os caminhos mais longos são os mais curtos. Cora Azedo, apesar de ser filha de um dos ícones da arte Naif, Aparecida Azedo, começou a pintar já adulta. A impressão que sempre tenho com Cora é a de que ela começou ‘tarde’ mas pegou a estrada da arte justamente onde sua mãe deixou. Já começou sendo premiada em três concursos antes mesmo de expor para venda seus quadros.

17° Salão de Artes Plásticas de Cerquilho (SP)
Premiação: Primeiro Lugar (30 de Abril de 2016).

Os prêmios foram os seguintes: 

1. Clube Militar - Prêmio Distinção. "Como o tema era educação, fiz minha mãe pintando com sua estante de livros ao fundo" (imagem abaixo).




2. Sociedade Brasileira de Belas Artes - Prêmio "Paleta de Bronze" (Imagem abaixo).


"Drummond e os pássaros"
Cora Azedo
Caneta stabilo 0,4 sobre papel Canson


3. 17° Salão de Artes Plásticas de Cerquilho (SP) - Premiação: Primeiro Lugar - 30 de Abril de 2016.
Dois quadros: "Festival de Pipas" e "Refugiados ll".

Na tela "Festival de Pipas", Cora resgata a ingenuidade característica do naif, porém de uma forma nova, contemporânea e própria, incluindo pequenos traços para preencher as áreas maiores, conferindo uma textura visual pouco encontrada nesse segmento de arte. Além disso, o trabalho trouxe uma nova leveza à paisagem carioca compreendendo o Aterro do Flamengo, as águas da Baía de Guanabara e os morros do Pão de Açúcar.


"Festival de Pipas"
Cora Azedo
Caneta Stabilo 0,4 sobre papel Canson

Por outro lado, em "Refugiados II", a pintora traz a realidade cruel dos norte-africanos e árabes que fogem de suas terras natais por ocasião e motivo de guerra e fome. As duas grandes mãos abertas podem representar tanto a súplica para que os europeus acolham esse população, quanto chamar a atenção para que as grandes potências realmente parem com suas corridas imperialistas e possam trabalhar em prol do fim das guerras e da fome. A inspiração de pintar o tema veio do sentimento de tristeza em relação ao drama sofrido pelas crianças refugiadas.


A breve e já vitoriosa carreira de pintora naif

Cora começou a pintar no final de 2014 em seu trabalho. Ela diz: 

"Andava um pouco estressada do cotidiano da vida e para espairecer resolvi um dia comprar um bloco de papel Canson e canetas Stabilo. Com elogios dos amigos, enviei um trabalho para participar do salão de artes da cidade de Cerquilho (SP). Para minha surpresa, fui premiada com o primeiro lugar. Fiquei, então, muito animada e comecei a participar de outros salões. Fui para o segundo, no Clube Militar, e ganhei outro prêmio e depois mais um na Sociedade Brasileira de Belas Artes".

Observe-se que como a entrevista já tem um tempinho, ela venceu novamente o Salão de Cerquilho, agora em 2016.

Quando perguntada sobre suas maiores influências nas artes visuais, ela responde que foi sua mãe, Aparecida Rodrigues Azedo: 

"Desde criança a via pintando objetos como roupas, lencinhos, tênis conga, bolsas de cartolina, que ela mesmo fazia, com o rosto do Wilson Simonal e outros desenhos, tudo isso para poder ajudar na renda familiar quando meu pai, jornalista e comunista, era despedido ou perseguido. Éramos seis crianças para alimentar".


Engajamento da pintora

Como exemplo dos pais filiados ao partido comunista e suas seguidas perseguições e prisões, Cora cresceu em um ambiente de luta em favor do mais desfavorecidos. Essa influência é clara ao se olhar para o aspecto de engajamento de seu trabalho quando ela chama a atenção não somente para as injustiças que ocorrem pelo mundo, mas também para questões e acontecimentos políticos de nosso país.

Ela nos falou sobre isso: 

"Convivi com pessoas de esquerda e vivi meu dia-a-dia tentando ajudar a mudar a realidade dos oprimidos. Participava de movimentos políticos e movimento de bandeirantes e escoteiros. A política sempre fez parte da minha vida. Talvez seja por isso que, na maioria das vezes, o que pinto 'diga' o que sinto no cotidiano, na realidade. A arte é uma forma de expressão que o artista precisa aproveitar para mandar a sua mensagem em relação a sociedade. Não posso ver a realidade e não participar; sinto a necessidade dessa participação. Não podemos fechar os olhos e a arte precisa ser expressiva: falar do mundo e para o mundo".

Nem por isso, seus desenhos e telas perdem em lirismo. Encontrei nessa obra (imagem abaixo), uma lição de brasilidade. A estrada passando na beira da casa tipicamente familiar a todos nós que viajamos por esse país, as pipas no ar, as aves voando e no chão, as bromélias na parte inferior da tela. Convenhamos, essa é uma típica paisagem de um Brasil que todos vemos quando viajamos pelo país.




As Olimpíadas de 2016 no Rio de Janeiro também não foram esquecidas. Cora fez algumas telas, destacando-se duas. Na primeira, vemos a nova Praça Mauá inaugurada em 2015, o Museu do Amanhã e o bondinho que vai correr por toda a zona portuária da cidade. Ao fundo, os belos detalhes da Ponte Rio-Niterói e o Pãozinho de Açúcar, fechando-se em círculo como numa perspectiva do planeta Terra arredondado-se quando visto de cima. Na segunda tela, temos uma competição de barco a vela na Baía de Guanabara com um belo Corcovado assistindo a tudo.