sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Mestre Vitalino: O naif que veio do barro

Texto: Álvaro Nassaralla

Mestre Vitalino moldando o barro
Foto: Pierre Verger
 
Algumas pessoas ainda perguntam se Mestre Vitalino era um artista naif. Podemos dizer que sim, já que sua obra guarda muitos traços de ordem ingênua, mesmo que outros insistam em categorizá-la 'apenas' como arte popular.


"Confissão"
Cerâmica policromada

Foto: Soraia Carls (Evandro Carneiro Leiloes)
Fonte: Arte Popular do Brasil
 
 

"Retirantes"
Foto: Divulgação

 
Assim, se algumas peças do mestre fugem das características da arte naif, se olharmos sua obra de um modo mais amplo, encontraremos muitas peças marcadamente situadas nesse tipo de arte. O artista fazia peças figurativas e iconográficas, com personagens cotidianos de sua região.



"Violeiros"
Acervo Museu Casa do Pontal (Rio de Janeiro)
Foto: Romulo Fialdini


Dito isso, refenciamos a Revista de História da Biblioteca Nacional que, em sua edição de julho de 2009, publicou a matéria intitulada "Mestre Vitalino - Do barro nasce um herói".

O texto, escrito por Angela Mascelani, orienta-nos para o universo criativo do artista: 

"Vitalino criou uma narrativa visual expressiva sobre a vida no campo e nas vilas do interior pernambucano. Fez esculturas antológicas, como “Violeiros”, “O enterro na rede”, “Cavalo-marinho”, “Casal no boi”, “Noivos a cavalo”, “Caçador de onça”, “Família lavrando a terra”, entre outras".


Segundo a reportagem, o ceramista falava de sua maneira de criar de uma forma no mínimo curiosa:

"Para explicar seu processo criativo, Vitalino utilizava o verbo “estudar” – ou seja, projetar e executar a obra, atividades também definidas por ele como “fazer no sentido”. “Estudei um dia de fazer uma peça… Peguei um pedacinho de barro e fiz uma tabuleta; do mesmo barro peguei uma talisca e botei em pé, assim; botei três maracanãs (onças) naquele pé de pau, o cachorrinho acuado com os maracanãs e o caçador fazendo ponto nos maracanã pra atirar”, descreveu".

 

"Banda de Músicos"
Cerâmica policromada

Foto: Soraia Carls (Evandro Carneiro Leiloes)
Fonte: Arte Popular do Brasil

"Noivos"
Cerâmica policromada

Foto: Soraia Carls (Evandro Carneiro Leiloes)
Fonte: Arte Popular do Brasil


"Cangaceiro"
Cerâmica policromada

Foto: Soraia Carls (Evandro Carneiro Leiloes)
Fonte: Arte Popular do Brasil



"Noivos a cavalo"
Cerâmica policromada

Foto: Autoria desconhecida
Fonte: Arte Popular do Brasil


Mestre Vitalino iniciou uma mudança da produção de cerâmica de utensílios domésticos para a cerâmica figurativa, trazendo elementos do cotidiano, da vida sertaneja para o barro moldado.

Sobre isso, Mascelani diz:

"De certa forma, o impacto dessas imagens vem justamente de sua banalidade. Elas eram um verdadeiro “achado”, por retratarem fatos e coisas que estiveram sempre ali, à vista de qualquer um, extraindo da simplicidade sua beleza. A consagração de Mestre Vitalino foi, sobretudo, a consagração de um gosto e de um tipo de olhar sobre a realidade. Daí ter sido sua criação legitimada quase instantaneamente como “arte”."



Peças a venda na feira de Caruaru
expostas pelo próprio Mestre Vitalino
Foto: Pierre Verger

 


Mestre Vitalino vendendo suas
peças a venda na feira de Caruaru
Foto: Pierre Verger


 
O artista também foi o precursor de uma nova geração. Não só seus filhos, netos e bisnetos continuaram a produção artística, como também destacam-se outros nomes surgidos no Alto do Moura: Manuel Eudócio (1931-), Mestre Galdino (1929-1996), Zé Caboclo (1921-1973), entre outros. Mascelani nos diz:

"Embora se reconheça o papel fundamental de Mestre Vitalino na atenção que o universo da criação popular passou a receber, o fértil universo artístico surgido no Alto do Moura não foi obra de um homem só, nem fruto do acaso. Tratava-se de uma comunidade oleira, onde muitos dominavam as técnicas da cerâmica numa época em que começava a diminuir o interesse por objetos utilitários feitos dessa forma. A industrialização recente passava a oferecer louças e outros utensílios feitos de alumínio e de plástico, considerados mais atraentes e práticos. Com isso, os ceramistas tradicionais se viram pressionados a descobrir novos usos para seus talentos. Ao mesmo tempo, mudava o entendimento do que poderia ser admitido como arte e sobre quem poderia ser considerado artista".




Clique aqui para ler a matéria completa
da Revista de História da Biblioteca Nacional.
 

Hoje, a casa onde o artista viveu foi transformada em Casa Museu Mestre Vitalino. A Presidente Dilma visitou oficialmente o museu e foi presenteada pelos filhos e netos do Mestre, conforme fotos abaixo:  

Presidenta Dilma Rousseff recebe presente
de Vitalino Pereira dos Santos, neto do Mestre Vitalino,
durante visita à Casa-Museu Mestre Vitalino
(Caruaru, PE, 22/06/2011)

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR



Dilma Rousseff conversa com o filho
do Mestre Vitalino, Severino Vitalino


Foto: Roberto Stuckert Filho/PR



 
Segundo Thereza Pires, o artista "deixou como herança 118 peças e a inspiração constante para cerca de 400 artesãos que se espalham nas ruas do Alto do Moura". 




"Ceia", s.d.
cerâmica policromada
14 x 24 x 30 cm

Acervo Galeria Pé de Boi
Foto: Cícero Rodrigues
Fonte: Enciclopédia itaú Cultural




O blog Arte Popular do Brasil dá a importante dica de onde podemos encontrar obras expostas de Mestre Vitalino:

"Parte de sua obra pode ser contemplada em importantes museus, alguns dedicados à arte popular, como o Museu de Arte Popular do Recife (Recife), Museu Casa do Pontal (Rio de Janeiro) e o Museu do Folclore Edison Carneiro (Rio de Janeiro). Vitalino possui ainda obras expostas no Museu do Homem do Nordeste (Recife), Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro) e no Museu do Louvre (Paris, França). Entretanto, a maior parte de suas obras faz parte de coleções particulares. As obras de Vitalino alcançou ao longo dos anos um elevado valor econômico e ainda são comercializadas em alguns leiloes de arte pelo Brasil".


Por fim, para quem quiser adquirir peças feitas pelos descendentes do mestre, é só se dirigir à Feira de São Cristovão, onde são vendidas desde grandes formatos a até apenas belas miniaturas de cerca de 2 cm de altura.

Realmente pudemos constatar que as peças são muito bem acabadas e se distinguem facilmente de outras, produzidas em massa, que se encontram nessa própria feira e pelo Brasil a fora.

Veja também o perfil do Mestre Vitalino aqui no IIAN.