segunda-feira, 7 de maio de 2012

Valquiria Barros

Valquiria Farias de Barros nasceu em MG, em setembro de 1951, na pequena Jaguarão, onde viveu até os 18 anos. Estudou em BH e, nessa ocasião descobriu que poderia traduzir suas sensações através da arte. Desenhava em bico de pena cenas mineiras que retratavam suas vivências no campo. Foi para SP em 1974, quando conheceu seu ex-marido, Pablo Elgueta, artista plástico e grande incentivador de seu trabalho.

Face à necessidade de revelar o colorido vibrante de suas raízes, começou a pintar telas onde a paisagem de MG está sempre presente. Seu passado junto com a família, plantando e tratando a terra fizeram-na uma criatura amante da natureza e observadora constante dos costumes de sua gente. A profundidade de suas paisagens, aliada a um colorido tranqüilo transmitem-no uma sensação de paz e harmonia. As figuras humanas são simples, como simples é o nosso povo.

As cenas rurais que retrata evocam a simplicidade e o encanto de sua ingênua sensibilidade. Seu trabalho é minucioso, delicado e atraente, de um colorido que em nada cerceia ou delimita a sua inspiração. O verde é uma constante, plena de paz, como mensagem que transmite como verdadeiro oásis no atual mundo conturbado.

(prof. Dr. Myriam Ellis)

É merecedora de vários prêmios em 1979, com as medalhas de bronze no XVI salão oficial de Embu e menção honrosa no XVII salão oficial da AAAPSP 1980.

Participou de várias exposições individual e coletiva no Brasil e exterior. É catalogada no livro de arte Mito e Magia dell colore pintura brasileira, editado por Gianni Gelleni, Livro de arte contemporânea por N.Martins e Dicionário de artes plásticas Brasil 98 vol.10 Júlio Louzada.

A BORDADEIRA DE FIOS ENCANTADOS

O terrestre transfeito em paradisíaco é o que faz a obra notável de Valquiria de Barros. Seus quadros evocam, no apreciador atento, algo como uma forma de meditação sem palavras, de vez que há em sua pintura a já decantada “paciência beneditina”, que fez desses monges uns encantadores perfeccionistas no sentido mais elevado deste termo. Viajar com as pinturas de Valquiria é das coisas mais fáceis e prazerosas, de vez que se tem à impressão de estar-se visitando a confeiteira divina. Quanta doçura e quanta densidade! É sempre o intrigante mistério da vocação para ser co-criador do mundo.

Pascal, o matemático e filósofo do século XVII, escreveu sobre dois conceitos que a obra pictória de Valquiria siscita: o conceito de esprit de finesse, espírito de finura e delicadeza que traz uma sutileza quase mediúnica, e o de esprit de géometie, que é a razão traduzida em equilíbrio. Na finura delicada dos quadros de Valquiria de Barros, chama nossa atenção seu primoroso sentido de composição: um senso geométrico que, trabalhando com planos de profundidade e planos lineares, estabelece o mais sábio equilíbrio no conjunto pictório. Há equilíbrio de massas nos elementos de composição, bem como um quase diálogo entre centrífugo e o centrípeto em seus quadros: uma conversa boa entre pontos de fuga e pontos de concentração coisas todas essas que, os olhos argutos não escapam. Aliás, há muito tempo a melhor crítica de arte já percebeu que “naif” é algo de uma simplicidade enganadora, pois ele impõe suas específicas complexidade, que não pesa nem satura. Que encanta.

Eis que deve ser chamado pelo nome: maturidade artística e humana, na qual cores e luzes dialogam sem confrontos de impacto. É uma música que, supomos, nem a própria pintora entende em toda sua densidade emocional.

Vez outra Valquiria de Barros penetra por florestas do seu inconsciente ou do seu passado, e as pinta! E são florestas que sintetizam os silêncios da natureza, toda ela habitada pelas energias divinas. As florestas valquirianas poderíamos jurar, tem odores que nos penetram como que exercendo sobre nós quase um efeito terapêutico. Como se pode perceber, não é sem razão que seus quadros estão em catálogos de importância nacional e internacional, fazendo parte de coleções importantes em nosso país e no estrangeiro.

Encanta as pessoas sensíveis que artistas desse porte venham, naturalmente e sem pose, movidos pela mais cristalina generosidade, expor seus trabalhos em local público e ao ar livre. No que me diz respeito, fico sempre imaginando o artista em seu ato criador; e vejo Valquiria trocando agulhas por pincéis de ponta minúscula para bordar calmamente com os encantados que a Vida – que é outro nome de Deus – lhe oferece.

Valquíria de Barros traz consigo os motivos leves e coloridos do interior, das comunidades campesinas feitas das paciências dos que dialogam com as chuvas, com o sol, com as estações; e traz isto tudo com espírito de finura que acende em nosso coração uma nova fé na beleza que há de melhorar nosso mundo e nossas vidas.

Uns pintam como que dançando um ballet, praticando fazendo uma coreografia na frente e em volta de suas telas; e tais pinturas às vezes são de grande excelência. Valquiria não. Pelo menos não a vejo bailar, vejo-a como a bordadeira que borda pacienciosa com fios de encantamento. E a textura final que a artista alcança em suas telas é como uma gaze de transcendência sobre o cotidiano.

(*) Doutor e livre docente em educação. Professor titular aposentado da UNICAMP, atualmente professor titular da PUC Campinas e da UNISAL de Americana / SP.

Fonte: valquiriaelgueta.com.br